Rúben Amorim: Há uma linha ténue que separa o amor do ódio
“E se corre bem?”. Foi este o mote que Rúben Amorim propagou assim que chegou a Alvalade, no dia 4 de março de 2020. Volvidos quatro anos e meio, somaram-se cinco títulos ao palmarés leonino, entre eles dois Campeonatos Nacionais, duas Taças da Liga e uma Supertaça Cândido de Oliveira.
Rúben surgiu no universo
sportinguista numa altura em que as dúvidas eram muito maiores do que as
certezas. O cenário vivenciado dentro do clube, repleto de instabilidade, assolava
o futebol dentro das quatro linhas e a consternação piorou após a oficialização
de um nome com pouco tempo de experiência como treinador principal. A etiqueta
de ‘terceiro treinador mais caro do mundo’, após pagamento da cláusula de 10
milhões de euros ao SC Braga, não ajudava e a apreensão ganhava outras
proporções pela ligação passada de Rúben ao eterno rival.
Ainda assim, Amorim provou que a
frase proferida no dia da apresentação não era em vão, conquistando sócios e
adeptos, que até então viviam divididos e desunidos, numa luta de egos e
presidências.
A época 2020/2021 ficou marcada
pela eliminação catastrófica no play-off de acesso à Liga Europa frente ao
modesto LASK Linz. Os indícios não eram positivos, mas a equipa reergueu-se
para escrever um dos capítulos mais bonitos desta relação entre treinador,
clube e adeptos. A temporada terminou com o título de campeão nacional, pese
embora se tenha considerado que o feito se devia à ausência de competições
europeias e de adeptos no estádio. Rúben construiu uma equipa baseada nos
ideais da luta e superação, com várias vitórias nos últimos minutos.
Caracterizava-se pela união de grupo e pela resiliência, acima da qualidade do
futebol praticado, num modelo dependente de uma exímia organização defensiva,
triunfos pela margem mínima e da figura Coates como ‘ponta-de-lança’ em
momentos de aflição.
Em 2021/2022, o retorno dos
adeptos aos estádios foi acompanhado pelo regresso do clube à Liga dos Campeões
e pelo segundo lugar no campeonato, atrás do FC Porto. Apesar da ânsia
sportinguista pela reconquista de um novo título, a época seguinte trouxe um
balde de água gelada para Amorim e companhia. O Sporting esteve, desde cedo,
fora da luta pelo campeonato, acabando num desastroso quarto lugar e com uma
eliminação precoce da Taça de Portugal frente ao Varzim.
Como forma de demonstrar que
2022/2023 tinha sido apenas um percalço, a temporada transata trouxe consigo um
Sporting dominador, reflexo do crescimento individual de Amorim. O modelo de
jogo, que vinha a sofrer diversas alterações desde a primeira época, atingia o
ápice até então. O 3-4-3, que sempre o representou, era agora um sistema
híbrido, com zonas de pressão bem definidas, um ataque posicional demolidor,
com múltiplas soluções para desmontar blocos baixos, e transições ofensivas
letais, sobretudo devido à presença de Gyökeres na frente de ataque. O final de
época culminaria na conquista do vigésimo título de campeão nacional, com um
novo discurso simbólico de Rúben, desta vez no Marquês: "Dizem que jamais
seremos bicampeões outra vez. Vamos ver...", deixando um presságio para
aquilo que se avizinhava.
Chegados a 2024/2025, nada mudou
no que toca à máquina compressora construída por Rúben. Tamanha superioridade
traduziu-se em nove vitórias em nove jogos para o campeonato, 30 golos marcados
e apenas 2 golos sofridos, para além dos dois triunfos e um empate conquistados
no novo formato da Liga dos Campeões. Enquanto isso, em Inglaterra, o
Manchester United somava apenas 11 pontos em 27 possíveis, culminando num
paupérrimo 14.º lugar. A derrota frente ao West Ham acabou por ser a gota de
água para Erik ten Hag, depois de 128 jogos à frente do clube.
Daqui, começaram a multiplicar-se
as notícias que davam conta do interesse do Man. United em Amorim. Poucas horas
depois, o Sporting informou à CMVM que os ‘red devils’ estavam dispostos a
pagar a cláusula de rescisão de 10 milhões de euros pelo treinador português, o
que alimentou a probabilidade de uma saída prematura.
Como se sabe, o estilo de
comunicação de Amorim sempre foi altamente apreciado e elogiado e, como tal, as
suas conferências de imprensa eram aguardadas de forma impaciente. A ânsia de o
ouvir falar aos microfones duplicou a partir do momento em que saíram as
primeiras notícias. As conferências deixaram de abordar qualquer componente
técnico-tática e passaram a ser exclusivamente dedicadas ao futuro do, então, treinador
leonino.
O que se sabe, atualmente, é que
Rúben está mesmo de partida, tendo sido oficializado durante o dia de sexta-feira
pelo clube inglês. O Sporting receberá 11 milhões de euros, ficando ainda por
decifrar o staff que acompanhará o treinador de 39 anos, que só partirá para
Manchester no período de paragem para seleções. As opiniões relativas a esta
decisão dividem-se entre a razão e a emoção.
Por um lado, o universo
sportinguista considera que esta mudança repentina é uma traição ao clube,
jogadores e adeptos, onde o egoísmo prevaleceu acima do respeito e sensatez. A
revolta justifica-se pelo receio de deitar tudo a perder numa época que podia
ser histórica, com a conquista de um bicampeonato que não acontece há mais de
70 anos. No balneário, um sentimento de mágoa vem ao de cima quando se pensa na
permanência de alguns jogadores (Gyökeres), que foram convencidos pela
continuidade do projeto ‘Amorim’. A própria comunicação e gestão da situação
por parte do treinador foi controversa, ao afirmar que só iria expor as suas
intenções após o jogo com o Estrela da Amadora, para evitar desestabilizar o
plantel. O comunicado do Man. United acabou por sair horas antes da partida,
colocando em causa o seu discurso.
Quando se fala em ‘comboios que
só passam uma vez’, as duras críticas por parte dos sportinguistas aumentam.
Como adeptos, argumentam que treinadores do nível de Amorim teriam sempre
oportunidades, nomeadamente na Premier League, quer agora, quer no final da
época. Resta saber até que ponto isso é verdade. Vejamos. A vaga do Man. United
estaria, em princípio, fechada, e não se espera que haja alterações nos
timoneiros de City, Liverpool, Chelsea ou Arsenal. Em contrapartida, propostas
oriundas de clubes de meio da tabela nunca teriam o mesmo peso e impacto na
carreira de Amorim, mesmo que fossem vendidos como ‘trampolins’ para clubes de
maior dimensão.
Além disso, é importante olhar
para o número de treinadores portugueses que saltaram diretamente para colossos
do futebol inglês: foram dois, Mourinho e Villas-Boas, ambos para o Chelsea,
sendo que tiveram de alcançar previamente conquistas europeias para lá
chegarem. Será que a oportunidade de Amorim é, então, assim tão recorrente?
Por outro lado, apesar de se
considerar o risco desta decisão, a possibilidade de mudar a história recente
de um clube com o nome e a grandeza do Man. United deve ter pesado, certamente,
na cabeça de Amorim. Rúben pode fazer em Manchester aquilo que conseguiu no
Sporting, entrando num período de incerteza e instabilidade e catapultando o
clube para a conquista de títulos. Se o conseguir, será visto como um herói por
uma massa adepta que se acostumou à mediocridade, almejando regressar aos
tempos áureos de Alex Ferguson. O que tem a ganhar, caso consiga reverter a
maldição do ‘cemitério de treinadores’, é muito superior àquilo que tem a
perder se as coisas não correrem como planeado.
No Sporting, a vida continuará,
sem Amorim, com os de sempre. Com aqueles que permanecem, sob qualquer
circunstância, até ao último suspiro.
No fundo, a questão que se coloca,
para ambos os lados, é: “E se corre bem?”.

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