Espanha confirma hegemonia recente: Campeã do Mundo 2026
Ao contrário de Luis de La Fuente que não introduziu
mexidas na equipa, Lionel Scaloni mudou três peças comparativamente ao encontro
com a Inglaterra, retirando um dos pilares do meio-campo, Paredes, para
encaixar Nico González no lado esquerdo do ataque. Montiel substituiu Molina e
Rodrigo de Paul recuperou o lugar a Giuliano Simeone.
No duelo racionalidade x emocionalidade, a
Espanha exibiu-se a um nível notoriamente superior, canalizando o encontro para
um caminho de sentido único. A Argentina, por sua vez, ativou o “modo
sobrevivência”, mas a expulsão de Enzo Fernández, perto do término do tempo
regulamentar, não antevia um desfecho positivo para a seleção albiceleste.
Desde o pré-jogo que se presumia uma
postura mais contida da equipa de Scaloni, com a La Roja a assumir as rédeas do jogo e a despender a maior parte do
tempo em ataque posicional. Ainda assim, a presença anticompetitiva da
Argentina foi exacerbada e manifestou-se logo na primeira parte, durante a qual
ficaram bem patentes as dificuldades em unir o bloco, juntar passes e empurrar
a Espanha para o seu meio-campo defensivo.
A Espanha, igual a si mesma, propôs-se a
criar superioridades através da conexão próxima entre elementos, com os médios
novamente a assumir um papel crucial na circulação encarnada. Nos instantes
iniciais do encontro, o destaque recaiu em Lamine Yamal, que tentava tirar
partido da superioridade qualitativa versus Tagliafico (Nico González nas
proximidades). A mobilidade constante entre Rodri, Olmo, Fabián, Baena e
Oyarzabal no corredor central permitia amealhar passes precisos, sustentados por
ângulos de passe desenhados a régua e esquadro pelos intervenientes. Rodri,
quando baixava entre centrais, criava o 3x2 e oferecia espaço a Cubarsí para
definir o passe mais criativo.
A Argentina, para fazer face ao poderio
ofensivo espanhol, organizou-se, em bloco médio, no seu habitual 4-4-2. Julián
Álvarez mostrou-se irrepreensível no seu trabalho defensivo (fechar Rodri,
saltar a Cubarsí, acionar momento de intensificação da pressão), sendo que
quando saía do raio de ação de Rodri para condicionar Cubarsí, Enzo e Mac
Allister eram atraídos e os centrais ficavam encarregues de encurtar para impedir
receções orientadas a Dani Olmo e Oyarzabal. A albiceleste, com o decorrer do
primeiro tempo, começou a revelar dificuldades para controlar o lado de
Cucurella e Baena devido ao recuo excessivo e precoce de Rodrigo de Paul
(arrastado). No seguimento, originava-se, nesse flanco, uma janela de
progressão para Laporte ou de decisão para Fabián/Rodri, o que forçava Enzo a
saltar fora para condicionar, abrindo espaços na zona nevrálgica. No momento de
pressão alta, a formação de Scaloni assumia o HxH, fazendo-se valer da valentia
repetidamente impressa em cada duelo individual.
Fazendo jus à estatística mais condizente
com o futebol praticado, a Espanha voltou a conseguir sobressair na transição
defensiva, recuperando frequentemente o esférico em poucos segundos. Também em
organização defensiva encostou a Argentina às cordas, através da pressão
idealizada (em 4-4-2) para perturbar a primeira fase de construção adversária.
Olmo e Oyarzabal saltavam à vez, consoante o lado da bola (posicionamento em
diagonal para fechar Enzo), direcionando a pressão em L para o lado esquerdo do
ataque argentino. Deste modo, a seleção espanhola conseguia evitar o passe
central-central ou central-GR entre os argentinos e induzia ao jogo exterior
dos sul-americanos – retirando-os da sua zona de conforto, forçando a bolas
longas sem critério e afastando o jogo de Messi.
A lesão de Lisandro Martínez, ainda antes
do intervalo, conjugada com a exibição pouco conseguida de Nico González, levou
Scaloni a devolver Paredes ao meio-campo argentino no reatar da segunda parte.
Os primeiros sinais pareciam evidenciar uma Argentina com outra vontade de ter
bola (Paredes, com maior qualidade na distribuição, entre centrais; laterais
largos e mais profundos), mas essa intenção esfumou-se rapidamente depois do
amarelo mostrado ao médio do Boca Juniors. A Espanha cresceu novamente, viu o
espaço central-lateral como zona de entrada, explorou os contramovimentos dos
homens mais adiantados (Olmo/Oyarzabal primeiro; Ferrán/Merino mais tarde), e
até Cubarsí tentou a sua sorte de meia distância.
Nos raros lances de envolvimento argentino
em fase ofensiva, a definição de Simeone deixou a desejar – relembrar lance nos
descontos que oferece transição ofensiva espanhola, e consequente expulsão. No
prolongamento, o 4-4-1 defensivo transformou-se em 5-3-1, pós entrada de
Senesi, mas já com vários jogadores em esforço, o golo espanhol parecia inevitável.
Em desvantagem, o entorno de Messi evidenciou debilidades técnicas e
decisionais gritantes que dificultaram a resposta argentina. O melhor do mundo
ainda foi a tempo, nesse período, de dar esperança para a consecução de (mais
um) milagre, mas o futebol acabou mesmo por presentear quem mais o honrou.
A Espanha junta o presente Campeonato do
Mundo ao Campeonato da Europa 2024 e à Liga das Nações 2023, títulos conquistados
em torno de uma identidade própria e inconfundível. Obrigada por nos fazerem
crer que o futebol ainda é dos médios.
Messi, contarei aos meus filhos aquilo que nos proporcionaste, num Campeonato do Mundo, com 39 anos. Ha sido un placer.
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